sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Até sempre 2008, 2009, 2010

Sem saber como, ela deu por si naquela gruta escura. Estranho. Havia pouco, caminhava alegremente no prado verde, dando graças pelo Sol que havia aparecido após tanto tempo de intempérie e lhe aquecia a pele, e lhe transformava a existência num prazer desmedido.
Que buraco lhe teria escapado? Não o sabia. Apenas constatava que se encontrava naquele lugar frio e cinzento. Começou a andar, tinha medo, urgia escapar-se dali o mais depressa possível e voltar a encontrar os raios do seu Sol.
Andou durante muito tempo, muito tempo, até se aperceber que a gruta era, na verdade, labiríntica. Estava cansada. Pareceu-lhe estar muito longe já do sítio onde havia começado a andar. Pareceu-lhe que continuava a descer para o centro da Terra, porque cada vez tinha mais frio, o ar estava mais húmido, e cada vez a luz era menor.
Decidiu-se a não desistir enquanto não encontrasse a saída. Mas sentia que estava fraca. Tropeçava no escuro. As pernas tremiam e fraquejavam, mas ela não tinha vontade de ceder à estranheza da situação. Ela tinha a certeza que era ela quem estava a falhar, que algo lhe estava a escapar, que tinha errado uma qualquer curva.
De vez em quando, reateava-se um lampejo de esperança e fé nela, achando que tinha visto lá ao fundo um raio do seu Sol a espreitar por entre a obscuridade. Sim, porque ele estava lá fora, quente e brilhante, não se parecendo aperceber de que ela estava completamente perdida, sozinha. Mas acabava sempre por ser apenas uma ilusão, e ela voltava rapidamente a encontrar-se no frio e no escuro.
Quando ela se achou num vácuo sem saída à vista, pensou: cheguei ao fundo. Não tenho portas. Não tenho janelas. Não tenho como sair daqui. E acometeu-se de choro, e caiu, e chorou mesmo até ficar esgotada.
Nesse momento, em que se encontrava meio entorpecida pelo cansaço, pelo frio e pelo desespero, ouviu um sussurro que lhe dizia: Levanta-te, vá. Levanta-te. Tu tens um caminho a percorrer, nada é intransponível, as coisas são apenas aquilo que são. E percebeu: só tinha de voltar para trás e fazer o caminho inverso. Decidiu-se, e levantou-se.

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