domingo, 31 de outubro de 2010

Ufa


Depois de um dia duro pra caramba, a carregar caixas e caixotes, a arrastar mobília de um lado para o outro, a organizar livros, pastas e dossiers, a tentar encontrar uma logística viável, chegar a casa derreada, tomar banho e ir jantar com um grupão de pessoas excelentes, bem intencionadas mas um pouco barulhentas, chegar a casa a umas lindas horas e pensar no dia de amanhã (repetição do dia de hoje, porque terça tem de estar tudo funcional), ter um ataque de indigestão e um pequeno problema de insónia, estar na cama de portátil no colo a ouvir os gatos lá dentro a destruir a cozinha e o marido ao lado a ressonar, perdão, dormir profunda e ruidosamente,

o alívio e a felicidade de olhar para o relógio do pc e constatar que depois da uma e cinquenta e nove voltou a ser uma da manhã.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Gostei tanto, tanto, que tenho de escrever sobre ele - Textos alheios #2


Acabadinho de ler chez Sofia; gostei deste texto do Miguel Esteves Cardoso a tal ponto que, mais do que escrever sobre ele, prefiro limitar-me a reproduzi-lo. Vale a pena ler, da primeira à última linha.

"Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.

O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.

Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.

Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.

O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.

Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.

Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.

Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.

Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.

Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!

Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.

É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.

Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.

Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.

Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.

Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.

E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.

Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.

Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.

Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.

Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.

Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.

As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.

As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.

Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.

Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.

Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.

No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.

Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.

A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.

Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.


Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
Segredo de um casamento feliz por Miguel Esteves Cardoso
Numa altura em que vejo tantos casamentos de pessoas da minha idade a desfazerem-se, soube-me tão bem ler este texto do Miguel Esteves Cardoso. Ele que vive um casamento que, à partida, parecia tão improvável. Pois é...receitas não há, mas parece que há segredos.Os que se seguem saíram no Público.
Foto Revista Lux
Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.

O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.

Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.

Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.

O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.

Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.

Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.

Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.

Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.

Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!

Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.

É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.

Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.

Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.

Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.

Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.

E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.

Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.

Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.

Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.

Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.

Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.

As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.

As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.

Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.

Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.

Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.

No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.

Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.

A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.

Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.

Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar."

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ora vamos lá então experimentar este


Que me deram na farmácia, para resolver este problema. Eu insisti no Kelual, mas a senhora mandou-me trazer este e mainada. Agora vamos lá ver se a coisa funciona. Se fizer tão bem quanto cheira mal, é desta que me vou ver livre desta peste.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Se bem que nem sempre isso é possível...

... e às vezes o contrário também é verdade. O importante é haver sempre um equilíbrio. Por exemplo, em vez da viagem que vou fazer e que vos revelei há uns posts atrás, queria fazer outra. Mas como neste momento há prioridades a fazer face, não pôde ser. Ainda assim, tentei ser económica nas minhas escolhas (o que fui, ao máximo), e conseguir uma forma de ir uns diazinhos para fora. E aí está, e ficámos todos contentes na mesma.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Eu e as viagens #1


Há coisas que nos fazem felizes. Para mim, viajar está no topo da lista. Enquanto puder, vou fazê-lo. Mesmo que para isso tenha de prescindir de outras coisas. Prefiro de vez em quando optar por não comprar a, b, ou c - que também me poderiam fazer feliz - mas poupar nesses pequenos prazeres para poder de vez em quando realizar mais um sonho.

São opções pessoais - não critico quem dá prioridade a outros prazeres nesta vida! :)

Lord of the Dance


Muito bom. Fomos ver ao Coliseu e adorámos.

domingo, 24 de outubro de 2010

À deriva


Acabei de ver. Gostei muito, muito! Trata-se da história de uma família em ruptura, vista pelos olhos da filha mais velha, que aos 14 anos também começa a descobrir os caminhos do amor. Gostei particularmente do prisma pelo qual nos são desvendados os mistérios da família, que permitem um volte-face interessante no final da trama.

Valeu ver o Vincent Cassel e a Camilla Belle a falarem português do Brasil: o Vincent correctíssimo, mas adorável no seu sotaque francês (eu tenho uma espécie de fascínio por este homem, não sei porquê); a Camilla perfeita, quase passava por nativa. 10-0 ao Javier Bardem, lamento.

Valeu ainda para matar saudades desta música, que ouvi dezenas de vezes na minha adolescência, sempre que vi o Dirty Dancing. Soube muito bem.

sábado, 23 de outubro de 2010


Visto aqui e eu tive de copiar. Diz tudo sobre o meu talento ao tratar das minhas próprias unhas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Até estou de olhos em bico, como a Bellucci


Com todo o trabalho que tenho pela frente. Vou passar o fim de semana (quase todo) de nariz enfiado no computador, que é para aprender.

Só porque...
















...me apetece, porque estou feliz, porque estou nostálgica, porque pensei na Matilde, porque ver, ouvir e falar de casamentos me traz saudades desse momento da minha vida, porque me sinto bonita nestas fotos, porque me apetece.

Fotografias de Matilde Berk. Mais da autora aqui.

Versão com marca d'água para protecção de copyright.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Se é para ir para a guerra, vamos para a guerra!


Hoje recebi um senhor que me veio pedir para eu conquistar uma acção de que ele foi alvo. Estamos nessa Sr. L., eu gosto é de conquistas!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Saldo calórico da noite



Mau, muito mau, péssimo.
Ao chegar a casa tardíssimo e exausta, tinha o meu M. a começar o jantar... massa com atum e cogumelos (bem cremosa, claro está). Um copo de vinho tinto para acompanhar e, no final, meloa. Até aqui, dos males o menor.

Mas quando começaram a vir à mente aqueles diabinhos a dizer "falta-me qualquer coisa...", que raiva, porque é que eu não tenho mais força de vontade? Acabámos os dois com ar de culpados, a eliminar o stock de Hershey's Kisses e Peanut Buttercups. Que, por acaso, estavam guardados para um desconsolo, but still...

O pior é que, quanto mais cansada ou em stress eu ando, mais me apetece dar facadas na alimentação e, ironicamente ou não, menos tempo e forças tenho para ir ao ginásio. O rácio não é famoso.

Em breve, seremos muito felizes...

...aqui...


...e aqui...


...e ainda aqui.

Better with you


Mais uma série passada em NY, recheada de momentos de ir às lágrimas. Ainda só vimos três episódios, mas para já não desiludiu. Muito engraçada.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cenas da vida doméstica

O pirucinhas mais novo, giro que dói...


A mais velha sempre à coca num sítio qualquer, de preferência fora do nosso alcance, que com ela não há cá abraços e beijinhos.


Tudo enquanto este continua a testar a sua sorte - desta vez, apanhado em flagrante delito a tentar roer o tripé.

Cleansing time


Diz a minha amiga B. que está em fase de limpezas e arrumações, a arrumar o sótão e a limpar o jardim, deixando apenas as flores que poderá fazer crescer.

Seja esta limpeza em sentido literal ou figurado, acredito que é de uma importância fulcral nas nossas vidas. Chega sempre uma altura em que precisamos de nos desfazer do velho e desnecessário e manter apenas aquilo que nos é essencial. Para deixar a energia fluir livremente.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

...meu pão com manteiga.


São as coisas simples da vida as que melhor definem os mais sublimes prazeres.

É uma análise genial...


... seja este texto do Carlos Drummond de Andrade (conforme sempre vejo ser-lhe atribuído) ou não.

E as duas últimas frases são sem dúvida poderosas. Optemos sempre bem.

"Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias, se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."
Carlos Drummond de Andrade

domingo, 17 de outubro de 2010

Não podia vir mais a propósito...


...deste post de ontem:

“For what it’s worth: it’s never too late or, in my case, too early to be whoever you want to be. There’s no time limit, stop whenever you want. You can change or stay the same, there are no rules to this thing. We can make the best or the worst of it. I hope you make the best of it. And I hope you see things that startle you. I hope you feel things you’ve never felt before. I hope you meet people with a different point of view. I hope you live a life you’re proud of. And if you find that you’re not, I hope you have the strength to start all over again.”

Adoro #10

Os bolos caseirinhos do Pimenta Rosa. Nunca resisto a trazer uma fatia para partilhar com o M.. Ou duas, pronto, que eu não vou ao Porto assim tantas vezes.

E pronto, assim de repente, desgraçámo-nos os dois, mas só um bocadinho

A nossa tarde de compras foi frutífera. Acho que nestes dois dias esgotei o meu plafond A/W 2010/11. Mas precisava de reciclar algumas coisas, e portanto vou satisfeitinha; além do mais, para as coisinhas que comprei, até nem gastei muito.

Uma nota muito positiva para o outlet The Style em Vila do Conde, antigo Factory. Foi a primeira vez que lá fui desde a remodelação, e gostei muito. Tem IMENSAS lojas, em geral com óptimas oportunidades. Eu destaco a Sacoor, porque é uma loja onde me abasteço um pouco no que toca a roupa de trabalho mais formal - porque a roupa tem imensa qualidade e é intemporal, nunca passa de moda -, e em termos de outlet tem preços fantásticos. Para dar um exemplo, ontem comprei lá umas sabrinas, uma camisa e um tailleur calça-casaco, tudo com 70% de desconto.

Também adorei o The Style Lounge, um cafezinho engraçado para se fazer uma pausa na shopping spree, com coisinhas deliciosas para comer. Eu comi um muffin de banana, noz e chocolate absolutamente divinal!

Por fim, devo dizer que estava cheia de medo da enchente de fim de semana. Mas acabámos por ir mais perto do final da tarde, o que foi bom, porque pelos vistos é a hora em que o people começa a dispersar. Arranjámos estacionamento à porta, havia pouco movimento nas lojas, e como ficámos até às 21h30, foi uma horinha santa para andar a ver tudo sossegadinhos...

Única pedra no meu sapato: um casaco Purificacion Garcia que ficou lá a chamar por mim. Lindo, cinza, 60's, Jackie O, tudo o que eu queria. Mas custou-me dar o dinheirinho. Pode ser que encontre alguma coisa mais em conta algures por aqui - wishful thinking, anyway.

sábado, 16 de outubro de 2010

É nestas ocasiões que o anonimato dos blogs (por relativo que seja) nos ajuda a deitar as coisas cá para fora



Já por aqui fui falando de uma relação, anterior à minha presente, que tive. Foi uma história que deixou muita mágoa, muita desilusão, muito ressentimento. Foi uma relação que eu terminei unilateralmente. Os motivos? Desamor, a percepção de que já não se ama. De que não se sabe sequer se se amou verdadeiramente. E de que não se quer viver uma vida inteira com essa percepção. Como única certeza, o saber que tínhamos mesmo de ter vivido essa história, porque algo que começou, decorreu e terminou assim só pode ser cármico.

Foi um final abrupto, eu sei. Mas a partir do momento em que eu tive certeza de que não queria estar ali - sentimento este que durante muito tempo eu não soube que existia, para o qual fui alertada e sempre neguei, que depois começou a latejar lá dentro e de repente explodiu com um estrondo ensurdecedor - , porquê adiar? Seria viver uma tortura, um fim anunciado.

A outra pessoa, e as pessoas que o rodeiam, não souberam lidar com esse final. Não conseguiram, ou não quiseram, acreditar na verdade. Sim, porque fui incapaz de dar qualquer justificação que não a verdade, que é a maior forma de respeito que considero existir numa situação destas. Preferiram inventar teorias alternativas, que me transformassem numa cabra, numa pessoa não-grata. Literalmente. Numa oportunista, o que é de ir à gargalhada, digo eu. Preferiram esquecer o quanto dei de mim, todas as vezes que chorei à conta dos actos feios que ele praticou, todas as vezes que fui eu quem remendou os buracos que ele fez, todas as noites em que, durante um ou dois anos, trabalhei no projecto dele depois do MEU dia de trabalho, todas as faltas de "obrigado"s e de respeito, todo o apoio material e imaterial que saiu de mim durante os sete anos de relação. Preferiram esquecer os momentos bons que partillhámos. Sim, fui oportunista. Agarrei com unhas e dentes a oportunidade que a vida me deu de voltar a ser feliz. A consciência de que ali não o era.

Depois do fim, não acabou o pesar. Foram meses de perseguição, de telefonemas doentes, de mensagens obscenas, de esperas à porta de casa, de ameaças e de súplicas. E eu, que tanto quis agarrar-me à verdade, fui obrigada a fugir. A única forma de me libertar foi através de... uma mentira. Não me arrependo. Eu só queria (re)começar a viver, livre.

Tenho a certeza que ele, e a família dele, não me perdoaram. Que não me perdoarão jamais, por ter tido a coragem de fazer algo por mim. Nunca o quis ferir. Mas há coisas que são inevitáveis.

Eu, por outro lado, não os consigo perdoar. Ou não consegui, até agora. Não quero vê-los, falar deles, quero esquecer que eles existem, como na imagem que coloquei em cima. E isso é mau, porque me traz ainda suspensa desse desamor, dessa mágoa, desse ressentimento. Eu quero perdoar as pessoas que me injustiçaram com palavras, com pensamentos, com maldizeres. Mas até hoje ainda não consegui.

Ao longo destes 5 ou 6 anos que se seguiram à separação, foram-me dizendo que ele nunca ultrapassou a raiva dele. Que ele não seguiu em frente. Eu sempre desejei o contrário com todas as minhas forças - quanto mais não fosse, para me perdoar completamente a mim mesma. Hoje, enquanto passeava no Facebook, descobri o mural dele por mero acaso. Cedi, vi as fotografias. Ele pareceu-me tão bem, tão feliz, tão mais equilibrado. E eu fiquei tão contente. Por ele, porque descobri que quero que ele seja feliz, que esteja bem, que encontre o caminho dele. Por mim, porque senti que posso finalmente começar a deixar de me culpar. Talvez se eu algum dia me conseguir perdoar totalmente, consiga perdoar os outros. E talvez nesse dia esta sombra que, lá no fundo, sempre me acompanhou, possa ser afastada para sempre.

O meu piruças...



...depois do "corte radical" que sofreu esta semana, agora vou sempre dar com ele nesta linda postura de perna escarrapachada.
É ou não é um pançudinho? (Ainda só tem 7 meses e já pesa mais do que a Anouk, que tem quase 4 anos)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Change of look.


Eu sei, muitas pessoas me aconselharam a não cortar. Mas eu sou amiga das tesouras, o que fazer? Assim posso mudar quantas vezes eu quiser: corto mais pequenino, ele volta a crescer, eu volto a cortar e é um regabofe pegado. Confesso que me sinto mais livre; e, por outro lado, confesso que não era nada disto que eu estava à espera. Mas é o que acontece quando dou carta branca à R. Surpresa!
Sinto-me um pouco Judite de Sousa - daí o ter posto a fitinha com o laço -, mas acho que é aquela sensação de ter saído do cabeleireiro. E é o meu primeiro bob! Será que vou gostar quando lavar e ele secar ao natural, cheio de ondas e volume? Hum... we'll see.
Acho que sei de uma pessoa que não vai gostar muito (hem, C.? Hihihi) mas a minha principal intenção é ir mudando e experimentando, qual camaleãozito que eu sei que sempre esteve aqui dentro. Daqui a um mesito ou dois, logo veremos o que me dá na cabeça. :)

É isso, é o desporto





Tem-me feito falta. Não propriamente o basquetebol, o desporto e a actividade física em geral.

P.S. Adoráveis estas imagens. Nem me importa que a desculpa para as usar seja meio esfarrapada.

Eu sei que estou a cultivar o gosto por mim mesma, e blá, blá, blá...


...mas começo a preocupar-me quando começo a verificar que as coisas estão a deixar de me servir, ou a magoarem-me nalguns pontos críticos. (Estou a pesar sensivelmente o mesmo, o que torna esta constatação um pouco um fenómeno. Acho que estou a fazer retenção de líquidos.)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ui ui...


Cheira-me que este fim de semana me vou desgraçar um bocadinho. Não devia, mas só um bocadinho, vá.