terça-feira, 22 de março de 2011

Franco desacordo

Não sei se já aqui falei sobre o acordo ortográfico a que infelizmente nos vamos ter de sujeitar. Mas se não o fiz aqui, certamente que noutros sítios já dei uns ares da minha graça. Contudo, hoje, ao ler este post by Saltos Altos Vermelhos, não posso deixar de tecer algumas considerações sobre, nem de colocar à douta blogocomunidade algumas dúvidas que me assolam.

Antes de mais, esclareço que nem sequer ainda me dei ao trabalho de ler extensivamente o acordo. Se tivesse por ele mais interesse, a diligência teria sido outra. Sei aquilo que nos é genericamente veiculado pelos meios de comunicação, e creio que isso é o suficiente para poder opinar com alguma legitimidade, até porque as minhas considerações são de cariz igualmente genérico.

Não concordo com a aplicação deste acordo ortográfico. Sinto que, com ele, nos é retirada alguma identidade. Sinto que tudo aquilo que aprendi com gosto - porque, para mim, aprender a minha língua materna com correcção sempre foi um verdadeiro gosto e um orgulho - é obsoleto e sem valor. E sinto que já nem sequer sei escrever português. Por isso, detesto que me imponham este "estandarte de modernidade", que nem sequer sei de quê ao certo é bastião.

E não me tentem convencer com argumentos do género "há relativamente poucos anos ainda se escrevia com ph e agora já ninguém se queixa" e não sei mais o quê. Não é a mesma coisa falarmos da evolução natural de uma língua, sua grafia e fonética, e falarmos de ajustes à grafia e fonética dessa mesma língua, por forma a que ela seja objecto de uma "normalização" extensiva a outros países que também a usam. Estranho apenas que essa normalização passe por uma adaptação do povo que a criou a novas regras, provindas por sua vez dos povos que adoptaram o português após séculos de existência. É assim que penso, e é por isso que rejeito escrever ao abrigo do novo acordo.

Por outro lado, tenho cá para mim algumas dúvidas, que me fazem também duvidar do carácter simplificatório deste acordo.
Pergunto eu:

1/ Agora escreve-se tudo em minúsculas (leia-se os meses, os nomes de ruas/monumentos/ etc.)? Por quê? Era realmente complicado apertar o shift para escrever uma maiúscula de vez em quando?

2/ Agora abolimos os acentos circunflexos? Juro que vou demorar o dobro do tempo a ler qualquer simples texto.

3/ E os outros acentos? Os agudos, por exemplo? Às vezes escrevem-se, outras vezes não? Qual é o critério? Por exemplo, qual o problema que havia em heróico ter acento? Juro que não entendo. Agora passamos a dizer "herôico" (porque só assim se torna lógico para mim)?

4/ E palavras como neorealismo? Ainda dizemos "rrrrr"? Também não me faz sentido.

5/ E os hífenes em, por exemplo, "hão de"? Que feio. Parece-me que estou a escrever a dar erros, porque a maior parte destes exemplos que apontei ERAM erros quando eu aprendi a escrever.

*suspiro com frustração*

13 comentários:

Sonhadora disse...

Não o vou usar... Não mesmo...!

siceramente disse...

É só mais uma mudança, até nos habituarmos é complicado, depois já nem nos lembramos como era antigamente :D

Queen of Hearts disse...

Siceramente, eu sou uma chata do caraças. :) Para mim, é mais do que uma mudança, é uma questão de princípio...

Manuela disse...

Querida Queen of Hearts, as reguadas (será que tem acento) que eu levei por causa do hão-de e vai-se a ver e eu era... uma visionária ;)
Olha, estou como tu, completamente perdida. Não sei como dar a volta a esta questão...
Beijinhos e um suspiro...

Ana FVP disse...

Bem, acabei de ter uma verdadeira aula de Português contigo! Eu sei que é muito mau eu estar a dizer isto: mas de todas as alterações que apontaste não fazia ideia de nenhuma... tenho que ler esse acordo como deve ser. Já percebi que há muitas coisas com as quais eu não vou concordar.

Rachelet disse...

Para mim, faz mais impressão (ainda) a questão de deixarem de se acentuar palavras que passam a ser homógrafas como «para/pára» e «pelo/pêlo». Estou mesmo a ver os coitados dos tradutores estrangeiros às voltas... se nem nós nos atinamos.

E outra coisa ainda mais execrável é que, se tivessem feito um acordo que regularizasse esta língua já tão difícil de ensinar, tantas são as excepções... mas parece que ainda vamos ter mais excepções do que regras.

(Em todo o caso, tens aqui ferramentas se te obrigarem a usar o «acordês»).

Miss Star Pink disse...

Ai nem te digo, nem te falo...
Há tanta gente a escrever tão mal q com o novo acordo nem sei como vai ser.
Sim e tal como a ti, a mim tb há imensas coisas q me metem confusão.

Beijocas

hoje vou casar assim disse...

Eu também não entendo a lógica de algumas alterações (como a eliminação do "c" em "ação", por exemplo). Mesmo assim, mentalizei-me que "o que tem que ser tem muita força"; portanto, se quero manter-me actualizada e evitar que pensem de mim aquilo que penso de muitos "avós" que se recusam a ceder a "modernices", então tenho que me informar e praticar.

Para essas tuas dúvidas, aconselho mesmo o uso dos conversores. No início são ferramentas muito úteis.

beijinhos

hoje vou casar assim disse...

- penso que os nomes de ruas e de monumentos continuam a ser escritos com maiúscula

- "pôde", por exemplo, não muda

- neo-realismo passa para neorrealismo e não neorealismo

- quando aos hífenes, acho que uma solução é decorarmos as excepções, que são poucas


beijinhos

Queen of Hearts disse...

HVCA, eu percebo o teu ponto de vista, mas sinceramente acho que esta situação do novo acordo e o ser-se resistente às "modernices" ou à modernidade são duas situações sem paralelo. Isto porque eu acho que é "estúpido", ou contraproducente, ser-se resistente a qualquer mudança, especialmente às que vêm da evolução, da modernidade. Porque estas mudanças, por norma, têm esse carácter evolutivo, trazem vantagens, trazem aspectos positivos. O acordo ortográfico, na minha opinião (que também não vale grande coisa :P), não traz qualquer vantagem ou aspecto positivo, nem tem qualquer aspecto evolutivo, algo que demonstre "os tempos são outros, estamos a progredir". Por isso, não partilho esse ponto de vista, mas respeito, claro. :)
Quanto ao acordo em si, confesso que me vai ser difícil absorver tantas excepções (sem me restringir aos hífenes) e tantas mudanças. Talvez se eu estivesse mais receptiva. Mas acho que a nossa língua, tal como disse acima a Rachelet, não só não se torna mais fácil de aprender para um estrangeiro, como vai ser dificílima de reaprender para milhões de nós. Enfim... realmente não há nada que se possa fazer. :)
Beijinho grande

hoje vou casar assim disse...

Percebo perfeitamente o que dizes.
A verdade é que, quer gostemos da ideia quer não, a nossa língua vai passar a escrever-se segundo o acordo ortográfico. Se nos recusarmos a "actualizar" a forma como escrevemos, passaremos a escrever incorrectamente.

beijinhos

veeny disse...

Ai como me revejo neste post... eu ando, voluntariamente, a tapar os olhos para o assunto e não li nem me apetece ler, nada sobre o tal (des)acordo! É que ao zé povinho ninguém pede opiniões! Já me perguntei até se o marido não terá de mudar o nome e retirar o "c"! E faço questão de colocar "baPtizado" nos convites da C.! É que é mesmo mau escrever com erros!!

Jo disse...

Percebo-te perfeitamente, e concordo na íntegra. Tudo me parece vir cheio de erros, neste momento, e para ser franca nem estou especialmente interessada em me começar a habituar a isto e a adoptar as novas regras. Como aqui referiste, há mudanças que me parecem simplesmente... estúpidas e facilitismo. Para quê? Muito honestamente não entendo. Se a língua tem que evoluir, com certeza. Mas não me parece que tenha que evoluir só porque sim. O exemplo que deste da palavra 'neorealismo' parece-me um excelente exemplo da falta de sentido de algumas alterações.