quinta-feira, 21 de abril de 2011

Esclarecimento

Face ao comentário deixado neste post, obviamente terei de deixar alguns esclarecimentos para que a posição que eu quis verter seja bem entendida por todos os que a lerem:

1/ Antes de mais, uma consideração prévia a tudo o mais: considero que este momento de crise ou recessão económica ou seja lá o que se quiser chamar ao período que estamos a viver, não é apenas provocado por uma série de más decisões políticas, que perduram já há muitos anos, mas é também - e em larga medida - uma crise de valores e de posturas. Generalizando muito (porque felizmente há MUITA gente à minha volta que contraria esta minha generalização) a mentalidade de LARGA FATIA da nossa população gira à volta da boa vida. Trabalhar dói nos ossos, dói na cabeça, dói muito mais do que viver a boa vida. Temos o culto dos feriados, dos fins de semana prolongados, das férias boas, de preferência com viagens à mistura. Contra mim falo, pois quem é que não gosta? Mas em quantos países é que acham que há este culto? Eu tenho amigas americanas que sempre ficaram espantadas quando eu lhes dizia que vinha aí um feriado. "Outro??" era sempre a pergunta que me faziam. E eu sentia-me verdadeiramente afortunada, pois quem é que não gosta? Mas começo realmente a achar que a gente não gosta muito é de trabalhar. Isto associado à quantidade de pessoas com que eu diariamente me deparo e que vejo nitidamente que preferem viver à custa de um subsídio de desemprego, a "descansar" um bocado, do que entrar já novamente na luta; as pessoas que se preferem encostar a um subsídio social do que pôr a bom efeito o corpinho são que têm; as pessoas que querem um "emprego" e não "trabalho". Isto associado também à mania de se ter tudo aquilo o que se quer; de nos endividarmos constantemente, na senda de conseguir ter algo mais, seja um carro de que não se necessita, seja umas férias, seja um casamento à grande, seja o que for; o facto de termos sempre mais olhos que barriga, porque estamos (mal) HABITUADOS a ter, sem saber se podemos, efectivamente, suportar esse custo. Olha, os hotéis lá estão, todos CHEIOS a abarrotar, e eu a achar que estávamos mal de finanças. Enfim, isto é apenas um desabafo, mas em tempo de crise isto, a falta de vontade de lutar, revolta-me.Porque acho que, além de tudo o que defendo que deve ser feito para resolver, acho também que sem uma revolução ao nível das mentalidades, havemos de estar sempre a pisar nas mesmas armadilhas. É bonito de dizer? Se calhar não; mas é o que eu penso.

2/ Quanto ao post em si: Eu sei que a resolução de dar tolerância de ponto na Páscoa e noutros feriados não é deste ano. Só acho que se estamos em crise, este tipo de medida não só não adianta nada, como ainda nos pode custar mais nos bolsos. Em tempo de crise acho que é importante usar de todas as armas, apertar o cinto a todos os níveis. E sim, trabalhar. Aumentar a produtividade sim. Não é trabalhar mais ou menos uma tarde que a vai aumentar? Não é certamente ficar em casa.

3/ Se os funcionários públicos não são produtivos? Nunca o afirmei. Não acredito que não sejam, não acredito pelo menos que sejam menos produtivos que muitos privados. A julgar pelos exemplos que sempre tive em casa (sou filha de dois funcionários públicos) e, já agora, pelos/as amigos/as que tenho na função pública, diria que só conheço pessoalmente funcionários públicos bem trabalhadores.

4/ Também não sou apologista de que os funcionários públicos devem sofrer mais cortes ou mais repercussões do que qualquer outro cidadão. Aliás, nunca o disse, não sei porque vem referenciado em comentário. Quem eu acho que devia sofrer grandes cortes em reformas e outras benesses é quem tem os bolsos bem cheios à custa dos contribuintes; quem acumula reformas por meia dúzia de meses de trabalho (?), quem acumula cargos para os quais é "nomeado", quem ganha dezenas de milhares de euros por mês em cargos de gestão pública. Quem largamente se distancia da generalidade dos cidadãos, sem que a meritocracia opere aí qualquer papel de relevo.

5/ Que fique bem claro que o que eu acho ridículo é manter-se o estímulo às tolerâncias de ponto, etc. nesta altura. O que eu critico é a decisão do Governo, principalmente às portas de um fim de semana de 4 dias! Não os funcionários públicos em si. Até porque muito trabalhador do sector privado que eu conheço usufruiu do mesmo benefício...

6/Por último, os valores de que falei (20 milhões de euros) foram noticiados. Não fui eu que os inventei.

E a única coisa que quero é que fique bem entendida esta minha opinião, que escolhi aqui manifestar. Concorde-se ou não.

6 comentários:

Filipa disse...

Onde posso assinar?

E antes que os comentadores me insultem, eu também tive direito a ponte e não sou funcionária publica. Se concordo? Não. Sobretudo nesta fase...

Closet disse...

Concordo na íntegra. Também o manifestei aqui:
http://ocloseteeu.blogspot.com/2011/04/estamos-em-crise.html
De facto se estamos em crise, há que começar por cortar em alguma coisa sem ser nos bolsos de todos nós e esta ponte não tem sentido quando vamos estar 4 dias praticamente parados. Desculpa a intromissão mas este assunto revolta-me!
Boa Páscoa

Karina sem acento disse...

Concordo contigo. Eu também fiquei chateadinha por ter de trabalhar o dia todo (não sou funcionaria publica), mas quem me paga o ordenado é o patrão, e sem produção, não há dinheirinho.

Acho que até já temos feriados a mais, e a desculpa de "é tradição a tarde de 5ª feira" não me convence... a tradição só é tradição quando interessa. Quando não interessa, passa-se a dizer que a mudança e inovação são necessárias.

Nokas disse...

Aplausos!!

maria sousa disse...

Não me referia exatamente a si,obviamente, mas a toda a comunicação social e a muitas pessoas e, sei que não é o seu caso, que pensam e proclamam alto e bom som que se devia cortar nos salários aos fp, esquecendo-se que 1º os fp não são responsáveis pela crise (tal como outro trabalhador não é responsável pela má gestão da empresa onde trabalha); 2º, se trabalham tem tanto direito ao seu vencimento quanto os demais trabalhadores(todos os que trabalham, o que infelizmente nem sempre acontece); 3º, se se corta aos fp dever-se-ia cortar a todos que trabalham, pois somos todos portugueses e a participação de uns deve ser a participação de todos. Se concordo com quem recebe RSI e "coça" as calças no café a tomar pequenos almoços, que eu tomo em casa e até podia fazê-lo no café? não mil vezes não! Se concordo com esta tarde quando existem mais quatro dias? obviamente que também não! O que já cansa e, vá lá, dói, é ver tanta gente a "bater" nos fp quando em todo o lado há bom e mau e, se alguns fazem pouco, como em todo o lado, também existem muitos, como aliás referiu, que cumprem escrupulosamente e, muitas vezes para além delas, as suas funções. Lamento que tivesse pensado que me referia a si. De todo! Foi um desabafo de quem está farta de ouvir e, sobretudo ler, tanta "maldade"(de salientar que mais uma vez esta maldade não se refere ao seu blogue que costumo seguir diariamente, embora nunca aqui tenha feito nenhum comentário. Calhou ser este o primeiro. Lamento!Talvez fosse a "gotinha de água". Felicidades para si e para o blogue que conto continuar a seguir).

Queen of Hearts disse...

Obrigada a todas pelos vossos comentários!

Maria, a si uma palavra em especial para lhe pedir desculpa se interpretei mal o seu desabafo. Realmente, fui algo extensiva na minha interpretação e não percebi que se referia à opinião pública em geral...

Eu concordo em geral com tudo o que aqui disse, pois como referi os meus pais eram ambos funcionários públicos até há bem pouco tempo, e sempre trabalharam que se desunharam. :) Por isso, pessoalmente não consigo fazer má ideia da função pública (certo que têm vantagens aparentes, mas só quem está dentro dessa realidade sabe se essas vantagens são todas verdadeiras ou algumas apenas aparentes), e tenho sempre em conta que, como no sector privado, há o bom e o mau em todo o lado, o produtivo e o malandrote, etc. Aliás, detesto que critiquem por exemplo os fp por "ganharem" bem, quando a função pública, na sua vertente mais "classe média" (não me estou a referir, obviamente, aos grandes cargos, nem aos cargos por nomeação aberta ou "oculta") está, em princípio, à disposição de qualquer trabalhador qualificado. E se ganham bem, há muita gente no sector provado a ganhar igualmente bem, embora o sector privado seja, necessariamente, aquele que publicamente descamba mais depressa com qualquer recessão. Enfim, tudo isto para dizer que, no essencial, estamos de acordo e que me desculpe se fui algo agressiva na interpretação.