quarta-feira, 1 de junho de 2011

Gostei tanto, tanto, que tenho de escrever sobre ele - Textos alheios #4

Tropecei neste texto da I. e senti-me tão identificada com ele que não resisti a atirar os meus dois centimozitos cheios de bílis para o pote.

Não são propriamente as borlas que me chateiam. Está certo que todos trabalhamos para viver, e para pôr a côdea na mesa; que todas as borlas que faço me retiram tempo precioso para outros assuntos, e outros clientes, que poderiam render dividendos que as borlas não me rendem. Mas não está na minha natureza negar ajuda - e aqui peço uma grande atenção para esta especificidade - às pessoas de quem gosto e que fazem parte da minha vida. Até o faço, quem me conhece sabe-o, com todo o prazer. A nuance está em que sou EU quem deve escolher a quem fazer uma borla - não ser procurada com esse intuito. Ponto número um. Os "avulsos" são os que me irritam, não os amigos ou familiares a quem pontualmente resolva um ou outro problema ou responda a alguma questão.
E acredite quem quiser, há situações verdadeiramente épicas: como a da fulana a quem devolvo uma chamada, motivada por eu lhe estar a tentar cobrar uma dívida para com um cliente meu, e levar com um "olhe, já agora, posso fazer uma perguntinha?". Comigo a pagar a chamada! Ou o dia em que recebo uma chamada de uma pessoa que "era só para fazer uma perguntinha", a tentar passar por conhecido, e eu sem perceber quem era e a insistir em saber, e a pessoa lá se descose "eu vi o seu nome na lista telefónica e estou a ligar". Claro que foi logo corrido a "então se quiser perguntar tem de marcar hora e vir cá".

Outra situação que me irrita sobremaneira é a de em fóruns ou afins se colocarem tópicos como "há algum advogado? - preciso de ajuda". Eu entendo que o dinheiro não nasça das árvores. Mas por amor da santa. E sim, já fui totó e já respondi em situações destas. Apenas para ter a caixa de mensagens a transbordar nos dias seguintes, e sem direito, muitas vezes, a um "obrigado/a" sequer. Resultado: deixei de ser totó. Num piscar de olhos, que eu tenho mesmo muito que fazer, graças aos Céus.

De resto, tudo o que é aqui referido é verdade, verdadinha. Só tenho a acrescentar um pormenor virulento: é um facto que as pessoas (nomeadamente as tais quem nem nos conhecem e querem só fazer uma perguntita) acham que quem tem um determinado curso ou ofício tem de saber de todas as áreas e sub-áreas e recantos desse ofício de cor, sem estudar e sem pensar mais de 30 segundos antes de responder. Não é assim, realmente. Mal de mim que tivesse todas as áreas do Direito Português, e todas as normas em vigor (mais os procedimentos das Finanças e da Segurança Social) condensadas no meu pobre caco. Nesse aspecto, é tamanha a ignorância alheia que, se uma pessoa não se quiser atravessar, dando uma resposta irresponsável e infundada, genérica e portanto falível no caso em concreto, além de se arriscar a que a levem a mal, aos olhos de quem quer um milagre ainda passa por burra e incompetente e leva a correspondente publicidade negativa.

4 comentários:

I. disse...

Obrigada pela referência e, para além de concordar com tudo, também digo já que à família e amigos não recuso ajuda. Se vejo que o caso é complicado e pode ser necessário ou mais benéfico contratar um advogado, é esse o conselho que dou (e que muitas vezes é mal recebido).
Já tive, logo quando estava a fazer o estágio, novata acabada de sair da faculdade, um balde de água fria: um amigo pediu determinado conselho, fartei-me de estudar para o ajudar, ofereci-me para tratar do assunto, e fui dispensada com uma frieza e tal e nem um agradecimento que fiquei triste, triste. Não lhe ia cobrar nada, era mesmo ajuda desinteressada numa situação de aflição.
Como não exerço, já não tenho que aturar certas coisas, mas às vezes fazem-me cada pergunta! Há pessoas que têm muita lata, sinceramente.

Queen of Hearts disse...

I., queria só dizer-te que percebi isso do teu texto! Aliás, acho que todas nós que nos "queixamos" dos abusos alheios fazemos o mesmo pelos nossos... ;) Sem considerar abuso, desde que haja sensibilidade e bom senso - também tive um balde de água fria como o que relataste, há bem pouco tempo. Aqui no post estava até mais preocupada que alguém - das minhas pessoas - lesse e se revisse indevidamente nestas situações de abuso... Daí o meu cuidado em fazer aquele preâmbulo. :P

Pumpkin disse...

Percebo perfeitamente o ponto de vista. Sempre que alguém sabe fazer alguma coisa, todos pedem "borlas". E uma coisa és tu que queres oferecer e o fazes com todo o gosto, outra coisa é pedidos descarados. Acontece na tua profissão, acontece no design (é só um logo, não dá trabalho nenhum - yeah right), na fotografia e até a minha amiga maquilhadora se queixa do mesmo...
As pessoas têm de saber separar as águas e perceber que se determinada pessoa faz X ou Y, vai efectivamente estar a dar trabalho e quando está a fazer esse tipo de borlas, poderia estar a cobrar a um cliente efectivo. Todos temos contas para pagar...

Queen of Hearts disse...

Pois é querida, e toda a gente se queixa do mesmo! Ainda para mais em tempos de crise, toda a gente quer poupar o bolsito e estes comportamentos têm tendência a exacerbar-se! :( Enfim, é lidar! Tentar aprender a dizer "Não" de uma vez, quando for o caso.