quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A [falta de] compreensão alheia

Um comentário da Me a este meu post inspirou-me a contar-vos as reacções dos outros ao facto de ter trabalhado até poucos dias antes da minha data prevista de parto.

Passo os dias a ouvir que já devia estar em casa a descansar, que tenho de pensar no bebé em primeiro lugar, que quando ele nascer vou-me abaixo das canetas porque não descansei antes...

Antes de mais, gostaria de esclarecer uma coisa. Eu até gostava muito de já estar em casa há algum tempo a descansar. Desde que engravidei que durmo muito mal, e a privação de sono, toda a gente sabe, deixa-nos num lindo estado - especialmente quando o nosso trabalho envolve puxar pelo caco o dia todo. No entanto, há um pequeno pormenor...

As pessoas parecem não entender o conceito de sentido de responsabilidade - eu sei que também tenho uma enorme responsabilidade - a maior de todas! - para com o meu bebé, mas ele está óptimo! Grandinho, gordinho, sem pressas, a mexer bem e o dia todo. Não o prejudiquei em nada por ter estado a trabalhar até agora. E seria bem mais fácil para mim se a minha situação fosse como a das pessoas em geral que me dirigem esses comentários. Ou seja, se me bastasse pedir à médica de família uma baixa para vir para casa, a receber grande parte ou o total da minha remuneração, descansadinha que alguém faria o meu trabalho por mim, ou que ele iria lá ficar à minha espera até eu voltar e ninguém me poderia penalizar por isso, se calhar até o faria... "Só" por estar cansada. Muito cansada. Com 16 kgs a mais, com os ossos todos torcidos, cheia de azia, a parecer uma velhota cheia de artrite reumatóide, com os pés e as pernas cheios de edemas.
Ou se calhar não. Porque apesar de tudo isso, estou bem de saúde, e o meu bebé também.

O facto é que, para mim, essa hipótese nem sequer se coloca. Não tenho direito a baixa. Não tenho quem faça o meu trabalho por mim (embora tenha dois colegas que me irão controlar as coisas, graças a Deus). E não tenho qualquer rendimento se não trabalhar. Além de tudo isso, considero-me profissional. Com brio no que faço. Custar-me-ia horrores abandonar tudo a um mês do parto, para poder "apenas" descansar. Por mais que isso me fizesse bem.

E ainda tenho de ouvir aqueles clientes que me perguntam quanto tempo vou ficar de férias... E quando lhes respondo que vou ficar em casa, com o meu filho, até ao fim do ano (a meu próprio prejuízo financeiro, entenda-se bem), ainda levo olhares de lado, como se dois meses fossem assim uma espécie de licença de maternidade exorbitante. Haja estômago.

14 comentários:

Su disse...

Olha, antigamente as mulheres - ao contrário dos dias de hoje - trabalhavam até começarem com contrações. Havia menos partos complicados - ainda que quando surgiam complicações fosse pior dado que havia menos condições - e eram mais rápidos. E porquê? Porque a mulher mexer-se é o melhor para um parto rápido e sem problemas quer para a mãe quer para o bebé.
O meu Rafa nasceu numa terça e eu trabalhei até à sexta-feira anterior. Ele nasceu cheio de saúde e o parto foi extremamente rápido e sem qualquer complicação.
Verdade seja dita que tive uma gravidez sem problemas e nunca fui muito afetada por problemas como inchaços ou mau dormir. Mas também acredito que mexer-me foi o segredo.

Desejo-te uma hora pequenina e tudo a correr pelo melhor!!!! Um grande grande beijinho e já sabes... qualquer coisa 'apita' - porque dúvidas e incertezas não te vão faltar ;)

Queen of Hearts disse...

Obrigada Su :) Beijinhos grandes

Julie D´aiglemont disse...

É o caraças das desvantagens de trabalhar por conta própria! Já não tenho férias há mais de 1 ano e adoro quando as pessoas me dão lições de moral por causa disso. Sim, porque eu não gosto de férias...
Caga nessa gente, mas é (estou cheia de classe, ihihih).
Beijos grandes nessa barrigona.
P.S. Mas vê lá se depois vens cá dizer coisas.

Queen of Hearts disse...

Prometidíssimo! :) Beijoca grande

Filipa disse...

O que interessa é que está tudo bem contigo e com o teu bebé. Que continue tudo a correr bem e que tenhas uma hora pequenina! :) Fico, deste lado, a torcer por ti.

Beijinhos!

Turista disse...

Querida QH, cada mamã, deve fazer o que bem entende e o que considera mais pertinente para si e para o seu bebé.
Esta é a minha sincera opinião, apesar de nunca ter sido mãe.
Quando nascer o pequeninho, diz-nos, está bem?
Beijinhos. :)

Queen of Hearts disse...

Filipa e Manuela, obrigada a ambas e um beijinho!!!

Vee disse...

Eu até tinha direito a baixa e a estar descansadinha em casa mas trabalhei até 2 dias antes da Helena nascer. Se me sentia bem preferi manter o ritmo normal.
Quanto às "férias" também tive de esclarecer várias pessoas sobre a natureza da licença parental. Engraçado que foram todos homens ou pessoal sem filhos.

Queen of Hearts disse...

Vee, isso é o profissionalismo de que falo... E acredita, se já não me estivesse a sentir fisicamente mal, não teria sequer vindo para casa.
Os meus clientes que me põem "de férias" também são todos homens. Coincidência ou não...

Me disse...

Como te disse anteriormente, não imaginas como senti cumplicidade com o que descreveste.

A mim ainda me consideram mais "ave rara" porque tenho direito a baixa por trabalhar por conta de outrem e pretendo - se continuar a sentir-me assim, trabalhar até dois dias antes da data prevista.

O meu trabalho não me stressa, pelo contrário, só me distrai e os quilómetros a pé (e de carro) que por vezes tenho de fazer, não me fazem mal nenhum nem à Mini Me. Por outro lado, tenho total liberdade para sair mais cedo nos dias em que me sentir cansada ou menos bem, sem que ninguém critique.

Esses comentários só podem vir de gente que gosta de se meter onde não deve...

Queen of Hearts disse...

Me, podes ter a certeza. É sempre a mesma maneira de pensar, a mesma mentalidade que preside a tudo neste país - tenho direito, vou usufruir, quer precise quer não. Tenho visto muita gente (grávidas) que passam a vida a dizer "estou cansada, vou pedir a baixa"; dão-lhes a baixa e ficam indignadas por só receberem 65%! Mas se não é uma baixa de risco médico! Detesto essa mentalidadezinha de querer aproveitar toda e qualquer oportunidade para ficar de papo para o ar... à custa dos contribuintes! É como te disse, também me sentia muito cansada, e por isso vim para casa, não dois, mas seis dias antes da minha DPP. Mas apenas porque me senti efectivamente em risco de capitular, porque se não batesse agora o pé, provavelmente estaria a trabalhar 5 mn antes de ir para o hospital - pelo menos, se fosse esperar pela compreensão alheia...

Me disse...

É mesmo essa a mentalidade tacanha que sinto e que me incomoda particularmente... Não a entendo mesmo.

E, já agora, com a retenção de liquidos que fazes, fizeste muito bem em vir para casa. Não imagino o teu desconforto.

Beijoquinhas

Purple disse...

Eu confesso que me revi quase no lado oposto deste post. Tive bastantes complicações na gravidez e aos 5 meses e meio já estava de baixa em casa, ainda pedinchei à médica mas nada feito. Infelizmente ouvi algumas bocas de mentes iluminadas que apelavam sobre o facto de "gravidez não ser doença". A verdade é que acho que as pessoas pensam sempre que sabem o que é melhor para os outros e cospem opiniões sobre a vida alheia sem pensar duas vezes.
Eu tinha dado tudo para ter trabalhado até perto do fim, para deixar tudo organizado e para me ter sentido útil e produtiva. Não o pude fazer e quase que te invejo por o teres conseguido.

Beijinhu enorme meu e da Di (e uma hora pequenininha)

Queen of Hearts disse...

Obrigada querida Purple :) E Di! :)

Eu percebo-te perfeitamente, infelizmente as "vozes de burro" só vivem mesmo para criticar. Quer tenham ou não por onde!

Um beijinho grande