quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ainda sobre a capa da Time

E enquanto não leio o próprio artigo, não poderia concordar mais com esta mãe. É cansativa a forma como a amamentação tardia é estigmatizada pela nossa sociedade. Quer se ache, ou não, bonito uma criança de 2 ou 3 anos mamar ao peito, quer se opte, ou não, por dar mama a um filho até ele/a deixar de querer, quer se tome a iniciativa do desmame, respeite-se quem toma opções diferentes das nossas.

Acho desrespeitoso, para não dizer ignorante, dizer-se que é anti-natura uma criança mamar depois do ano de idade, quando já pode beber leite de vaca. Que cria dependência doentia da mãe. Que faz mal a criança continuar a bastar-se com os nutrientes do leite materno depois do ano de idade.

Mesmo que eu não tivesse lido, conversado e pesquisado intensivamente este assunto, o meu senso comum dir-me-ia que o leite de outro animal, para mais de uma vaca, que como aquela mãe muito bem frisa, está muitas vezes entupida de químicos e hormonas, não é melhor, nem mais nutritivo, que o leite de uma mãe. Leite esse, como cientificamente se prova, carregado de imunidades e antioxidantes.

A história da dependência doentia é tão descabida que me dá vontade de rir. Tenho ideia que a dependência se cria por uma multiplicidade de factores, e que será tão ou mais induzida pela educação em geral que se veicula para a criança do que pela amamentação. E posso testemunhar que conheço uma ou duas crianças que foram amamentadas tardiamente e que são extremamente independentes, esclarecidas, inteligentes, enfim. Muito à frente, diria eu em conversa de café. Mais, muito mais, do que dezenas que conheço que foram desmamadas mais cedo ou até que nunca mamaram ao peito.

Por fim, é extremamente ignorante pensar-se que, se ao ano de idade ou mais a criança for amamentada, a sua alimentação se compõe de leite materno. Eu nem acredito verdadeiramente que haja quem pense tal coisa. Aos seis meses, no máximo, a criança começa a diversificar a sua alimentação - a OMS recomenda mesmo que tal se faça apenas aos 6 meses, nos casos de aleitamento materno. Muitas vezes, por questões práticas, como foi essencialmente o meu caso, começa-se mais cedo - só amamentei em exclusivo 5 meses, mas pretendia ir até aos 6. No entanto, e isso é certo, a partir dos 6 meses, inicia-se a introdução da comida sólida no bebé. Até ao ano, o bebé é lactente, o que significa que a maior tranche da sua alimentação se deve compor ainda de leite. Mas depois dessa idade, reverte-se essa proporção. Assim sendo, as crianças comem, ainda que ocasionalmente mamem, minha gente! Comem pequenos-almoços, lanchinhos, almoços, jantares! Comem papa, sopa, carninha, peixinho, ovos, arroz, massa, fruta, bolachinhas, vegetais, pão! Mas algumas, em vez de beberem leite de vaca quando bebem leite, bebem leite da mãe. E parece que aí é que está o problema.

Eu confesso que estou cansada do preconceito. O meu filho só tem seis meses, e sempre que eu digo que amamento, perguntam-me se ainda tenho leite (muito natural que tenha, errado pensar-se que o leite acaba de um dia para o outro), se o meu leite chega (chega pois, para as vezes que ele bebe, é que ele também já come! E o meu leite agora é produzido à exacta medida do que ele bebe), se ele não tem fome (tem sim, ao cabo de duas ou três horas sem ingerir nada, normalmente tem fome), se não me sinto muito presa. Não, não me sinto presa. Sinto-me livre por amamentar. Sinto que o meu filho nunca terá fome porque eu o amamento. Sei que se um dia me esquecer da papa em casa, ou do boião da fruta, posso estar onde estiver que ele não terá fome enquanto esteja comigo.

Não sei se ele continuará a mamar até um dia já falar e ser ele mesmo a pedir-me a maminha. Não tenho um plano. Tenho opiniões. Não me sentiria particularmente à vontade ao ter um filho grande agarrado ao meu peito em público, pois infelizmente sou permeável à opinião dos outros e sentir-me-ia olhada de lado. Mas acredito - e a OMS, que até "percebe" alguma coisa de saúde, corrobora - que um bebé pode e deve ser amamentado até aos 2 anos, se o quiser. Por isso, se o meu filho quiser continuar a mamar, certamente que até aos dois anos lhe farei a vontade, e depois logo se vê. Tenho a certeza que o rapaz, tendo os pais que tem, há-de gostar muito de comidinha. E quando ele quiser dedicar-se à comidinha e esquecer a maminha, terá toda a liberdade do mundo para isso.

11 comentários:

Rita G. disse...

eu amamentei a matilde até aos 15 meses, e só aos 6 meses começou a comer papa/sopas, e deixei de amamentar porque já não tinha leite. Pelo que sei a organização mundial de saúde recomenda a amamentação até aos 2 anos. Conheço mulheres que amamentaram até mais tarde, por volta dos 3 e não me choca, agora a foto da time já é extrema:) o miúdo já é mesmo muito crescido:)

Queen of Hearts disse...

Olá Ritinha,

Ele tem 3 anos :) Mas reconheço que a forma que a Time usou para publicitar a reportagem é, sim, um pouco extrema. No entanto, para mim é manipulada... No sentido de ridicularizar e radicalizar um pouco a posição de quem é objecto da reportagem, sabes? Foram buscar uma mãe jovem, bonita, atraente no geral, e escolheram logo uma imagem em que o miúdo até está com cara de frete, e ela numa postura assertiva... E o título "are you mom enough" também me parece algo manipulativo. No geral, não gosto nada desta abordagem, e estou ansiosa para ver o real resultado da reportagem...

Purple disse...

Devido ao contexto do nascimento da Di ela iniciou suplemento antes de beber do meu leite. Um mês e pouco depois acabei por ficar sem leite e na altura ouvi comentários sem fim sobre a importância do leite na alimentação da minha filha. Parecia que era menos mãe por já não ter leite.
Agora assisto ao fenómeno contrário, com sete meses muita gente considera que seria ridículo ainda amamentar porque a alimentação já deve ser diversificada.
A Di adora comer sólidos, mas o biberão e o seu leitinho é um verdadeiro consolo. Colocando-a no lugar de um bebé que junta a este consolo o aconchego do colinho da mãe e a ligação pele com pele faz-me questionar sobre como é que se pode colocar um "prazo de validade" a algo tão íntimo, tão benéfico e tão natural como a amamentação.
As coisas acontecem como têm de acontecer e as opiniões (contrárias à OMS) não passam disso mesmo opiniões.

triss disse...

Comigo aconteceu-me o mesmo, amamentei até aos 8 meses, e a toda a hora choviam comentários do tipo: mas ainda tens leite? e ela não terá fome? e já devias ter deixado aos 6 meses, erc e tal.

Independentemente de eu concordar ou não com a amamentação tardia, é como dizes, é uma opção pessoal. Eu nunca o faria, mas respeito quem opte por fazê-lo.

Só um aparte, o leite de vaca, que serve para alimentar bezerros e não seres humanos.
(claro que o podemos beber, não é isso que está em causa atenção)

Vee disse...

Eu sempre achei que essa aversão à amamentação tardia (nomeadamente por parte dos americanos) tinha um quê de sexualidade mal resolvida, alguém chamar perversão a algo tão natural não é normal.
Agora não amamento mas acho óptimo que alguém consiga amamentar o máximo de tempo possivel, não percebo esses comentários depreciativos da amamentação, até por parte de médicos, não são solicitados e não são informados.

Rita G. disse...

Tem 3 anos?? parece bem mais velho, é que a Matilde vai fazer 4 mas é mini:) Pois a minha opinião, e a da maioria dos pediatras, julgo eu, é que amamentar até aos 2 anos só faz bem às crianças. Não o fiz porque deixei de ter leite. Sinceramente o que me faz confusão são as mulheres que se recusam a amamentar, que têm leite mas não querem amamentar, isso é que confesso achar muito estranho...bj!

diasdetelha disse...

A Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação até aos 6 meses. A partir daí o bebé já é auto-suficiente em termos de anticorpos e de defesas para poder beber de outro leite. Mas a própria OMS já reconheceu que isto é vantajoso principalmente nos países em que as águas são pouco seguras para os bebés - isto é, que se uma mãe ocidental, com acesso a boa água e a boa fórmula, não puder amamentar, o bebé será igualmente saudável.
As grandes vantagens da amamentação no mundo ocidental são para o desenvolvimento da relação mãe-bebé e para o desenvolvimento emocional do bebé. E aí, pessoalmente, eu acho que a partir dos 12 meses já é perfeitamente possível estabelecer essa relação por outras vias e que a amamentação poderá ser dispensada. E, como psicóloga, acho que cria alguma dependência excessiva, amamentar para além dos 15 meses - mas isto é uma opinião profissional, não pessoal que eu ainda não tenho filhos. E digo dependência não só da criança, mas também da mãe. É importante, a partir dos 15-18 meses, que a criança comece a compreender que é um indivíduo em si só e não uma unidade com a mãe - e isto é fundamental para o desenvolvimento da autonomia da criança.
A maioria dos pediatras não recomenda a amamentação até aos 2 anos, recomenda-a sempre nos primeiros 6 meses e até aos 12 se houver leite. Claro que há pediatras a dizer coisas diferentes, mas se vocês soubessem o pouco que os médicos aprendem de psicologia...

**
mariana

diasdetelha disse...

Uma coisa que eu não disse e que é importante: é preciso lembrar que as directivas da OMS são desenhadas a pensar no mundo e, sobretudo, no mundo em desenvolvimento. Muitas das orientações são dadas como forma de salvaguardar as crianças dos países africanos e sul-americanos, países onde o acesso a boa água nem sempre é possível e onde o leite materno, efectivamente, é fundamental.
Nos países ocidentais é diferente, como eu disse, porque as condições são outras. Mas a OMS não pode fazer essa distinção discriminativa e opta por pecar por exagero, de forma a maximizar a protecção dos mais carenciados.

Dora disse...

Infelizmente, não tive leite. Gostava de ter tido quem me ensinasse a superar os problemas iniciais e não tive. Foi só confusão desde a maternidade. Eu acho que todo o sistema de saúde devia estar em uníssono nisso de ajudar as mães a amamentar. Não sei até quando amamentaria, é algo que só se pode avaliar estando lá. Sei apenas que entendo melhor quem amamenta até tarde do quem, tendo leite, não amamenta.
Gostei muito deste post, ainda bem que a capa da Time, sendo polémica, teve o mérito de por toda a gente a falar do assunto. As mães não falam muito de assuntos destes e deviam falar mais.

Dora disse...

Infelizmente, não tive leite. Gostava de ter tido quem me ensinasse a superar os problemas iniciais e não tive. Foi só confusão desde a maternidade. Eu acho que todo o sistema de saúde devia estar em uníssono nisso de ajudar as mães a amamentar. Não sei até quando amamentaria, é algo que só se pode avaliar estando lá. Sei apenas que entendo melhor quem amamenta até tarde do quem, tendo leite, não amamenta.
Gostei muito deste post, ainda bem que a capa da Time, sendo polémica, teve o mérito de por toda a gente a falar do assunto. As mães não falam muito de assuntos destes e deviam falar mais.

CS disse...

Olá Queen, vim aqui parar através do post da Ursa sobre a decisão dela não amamentar.
A minha tem 6 meses e continuo a amamentar. Também ouço sempre: "Ainda tens leite?" Respondo que enquanto o bebé mama continua a produção de leite.
Contudo, começo a pensar no desmame... algo que me aflige pois ela está agarrada à mama de unhas e dentes, fazendo com que não consiga recusar-lhe a mama.
A caminho dos 7 meses ela mama de 2h em 2h durante a noite o que me tem deixado mais cansada neste acumular de meses desde o nascimento. A pediatra já aconselhou introduzir o leite artificial durante a noite e para não lhe dar nada depois das 3h da manhã- Diz que ela vai chorar mas que será apenas os primeiros dias.
Não me sinto nada, nada preparada e só de pensar nisso dá-me vontade de chorar. Será decisão adiada por tempo indefinido. Prefiro acordar de 2h em 2h, às vezes de 1h a 1h durante a noite.
Gosto de acompanhar outras mães que estejam a passar pelo mesmo percurso que eu. Vou ser seguidora ;)
bjs
parabéns pelo lindo menino :)))