quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um tema que tem sido recorrente em surgir-me, sob diferentes contextos, é o colocar-se ou não as crianças pequenas numa creche, vs. ficar em casa com elas (mães que optam por não trabalhar ou estão desempregadas), ou deixar com família ou pessoas próximas.

O argumento que mais frequentemente observo como pró-creche é que "as crianças desenvolvem mais na creche do que em casa". A mim causa-me comichão ouvir isto. Nenhuma criança ganha inteligência numa creche, cada criança tem a inteligência que tem. 
Se ganham rotinas mais estabelecidas? Certamente que é o caso - e não deixa de ser importante -, mas depende de quem está em casa com elas.  
Se começam a fazer determinadas coisas mais cedo? Possivelmente sim, mais uma vez dependendo também de quem estiver em casa com elas. A importância prática de as crianças começarem a fazer tudo muito cedo, que precoces, que isto, que aquilo...? Para mim, pouca ou nenhuma. 

Ninguém se atreverá a questionar que nas creches com condições para isso se realizem inúmeras actividades giras, e que isso até ajude as crianças a atingirem mais depressa determinados patamares. No entanto, eu questiono a real importância disso.

Em que é que as crianças abaixo da idade de escolaridade oficial vão aplicar determinados conhecimentos? Em nada. Quando muito, sou até de opinião que, frequentemente, uma grande dose de conhecimentos antecipados até se pode revelar prejudicial, no sentido de que chegam à escola primária e já sabem ler, e já sabem escrever, e contar... E frequentemente não demonstram interesse nenhum por aquilo, por estarem a a aprender o que já sabem, tornando-se crianças desinteressadas, aéreas, distraídas, mal comportadas.  

Um dos maiores elogios que hoje em dia uma criança pode receber é que "está muito adiantado para a idade", que é precoce. Uma pessoa chega quase ao ponto (se se entrar a bordo) de pensar se um filho terá algum atraso de desenvolvimento se não fizer determinadas coisas... O meu filho não faz, aos 15 meses, nenhuma extraordinária habilidade que leve a pediatra a suspeitar de alguma sobredotação, nem ninguém que o conheça a um deslumbre objectivo. E no entanto, por montes de coisas que lhe vejo e oiço,  noto-o uma criança muito inteligente, que entende tudo e que, apesar de tudo, se faz entender, apesar de ser em "hum hum hum" ou em monossílabos aos quais, com muita boa vontade, já atribuimos significados. Noto-lhe os alicerces para muitos e diversificados talentos, que ainda não se sabe se virão, ou não, a ver a luz do dia.

A menos que uma criança seja home-schooled (e isso é mais para os extravagantes dos Américas), mais cedo ou mais tarde ela vai ter de ir para uma escola. Para mim, a idade ideal para isso acontecer, se se puder, é aos 3 anos. Se o meu filho aos 3 anos ainda não conhecer as letras, não souber escrever o nome dele, não souber inglês nem física, nem matemática aplicada, para mim isso é normal. Se ele chegar aos 6 anos sem saber ler e escrever o nome dele, não deixa de ser normal. Até lá, planeio deixá-lo SER CRIANÇA, o mais possível. Tendo possibilidade de o deixar com família até aos 3 anos, assim farei. Ele está bem, adora a companhia que tem, é estimulado, tem regras e rotinas (que para mim até são o strong suit das creches) e é extremamente bem tratado, com o amor com que só uma avó pode tratar uma criança. E depois disso, irá para uma escolinha qualquer; nessa fase, preocupar-me-á, acima de tudo, o ambiente familiar e a segurança do sítio onde o colocarei, assim como a aptidão do local para o desenvolvimento da criatividade e de outras fundações que considero importantes. 

Tudo isto digo eu, que até aprendi a ler aos 3 anos e comecei a escola primária antes dos 5. Mas aprendi a ler sozinha, e porque demonstrava eu o interesse. Nunca andei numa escolinha, sempre fiquei com as minhas avós, e a minha mãe nunca me puxou para nada (acho que ela até se assustava com o facto de eu querer saber tudo tão pequena).

11 comentários:

Vee disse...

Se as condições se proporcionassem eu ficaria com a minha filha e sinceramente muitas vezes considero a hipótese do home-scholing pelo menos durante o primeiro ciclo. Doa a quem doer eu estou absolutamente convencida que ela está melhor comigo do que em qualquer creche o dia todo.
Como existe a possibilidade (pelos horários do pai e avós) dela não passar a maior parte do dia numa creche decidimos que iria a partir do ano, e foi para começar a interagir com crianças da idade dela porque ela adora "miúdos".
Essa da creche desenvolver mais faz-me fazer logo um sorriso sarcástico porque acredito que possa ser benéfico para algumas crianças mas isso depende muito do tipo de pessoa que está com a criança e com o ambiente. Eu cresci com a minha avó e cresci num bairro com imensas crianças aproximadamente da mesma idade pelo que a questão de ir para a creche socializar não se punha. Por outro lado a minha avó é uma senhora que tem alguma educação e jeito para as crianças pelo que tinha paciência e conhecimento para me estimular e despertar a vontade de aprender. Não me ensinou inglês mas sabia escrever, contar e ler umas coisitas quando entrei na primária. Mais importante foi ter despertado a imaginação, a criatividade, a vontade de conhecer, isso foram as ferramentas mais úteis para a minha vida. As regras de uma creche normal e as actividades padronizadas não sei se teriam o mesmo sucesso (duvido muito).
A única ressalva que faço é talvez algumas creches que aplicam a pedagogia Waldorf mas mesmo assim a mamã é que sabe...

Sílvia disse...

Eu nunca andei na creche e só começei a aprender a ler e escrever aos 6 quando entrei na escola primária. Não me senti menos que os meus colegas nem nada do género. Sempre fiquei com a minha avó a ser criança: brincava o dia inteiro na rua com os vizinhos (por aqui ainda é possível brincar em sossego na rua), sujei-me, andava sempre com os joelhos esfolados, era mimada. Em suma, uma criança feliz e não senti que fosse "atrasada" em relação aos outros.

Me disse...

A Maria começou hoje a creche (segunda tentativa), única e exclusivamente porque neste momento e com esta conjuntura não arrisco largar o emprego e ir para casa (que era o que eu mais queria) e porque a situação em que está não é sustentável (são as avós que ficam com elas, mas ambas trabalham e nenhuma delas em regime de part time, por isso imagina a logística da coisa)... não entendo mesmo como é que essa de que os miúdos na creche desenvolvem mais. Com ela aconteceu precisamente o contrário. E eu, só fui para a creche com 3 anos e meio, na altura era a mais "despachada" da turma e fui sempre a melhor aluna... Sabes o que te digo? Balelas.

Red Nude disse...

Ontem eu achava que por esta altura a miúda já estaria num infantário. Ontem eu achava que a miúda iria para uma escolinha privada até completar a primária. Hoje a miúda tem 25 meses e continua com a minha mãe e agora passará a estar com uma tia que perdeu o emprego nestes "entretantos" da vida. Hoje eu sei que quando fizer 3 anos irá para uma escola, uma escola (pública ou privada) qualquer, onde hajam meninos felizes e professoras competentes. O que eu sabia ontem hoje já não me parece tão bom. A opção de a ter poupado a uma quantidade absurda de gripes e bronquiolites e outras coisas terminadas em "ites", deixa-me per si satisfeita. O organismo dela desconhece a palavra "antibiótico" e isso consola-me. Não lhe faltam mimos e estímulos e isso deixa-me feliz. Fui sempre trabalhar despreocupada e sem angústia, haverá melhor do que isto? Eu também cresci assim e isso não me diminuiu como pessoa, não me tornei menos sociável por isso, quando fui para a escola já sabia ler e contar e escrever e tive uma avó practicamente analfabeta mas uma mãe interessada. Com a minha avó aprendi a dar milho às galinhas, a saber semear legumes e flores, comi gemadas e esfolei joelhos, ele há coisas que não se aprendem na escola, digo eu. Elas não sabiam nada de pedagogia e para que conste eu também não sei, nem me interesso muito por isso, acho que ser mãe é um instinto. :-)
Obs. O meu sonho é ter uma filha feliz e não um macaco de circo (if you know what I mean)

Queen of Hearts disse...

@ all: plenamente de acordo com todas. Pudesse eu largar o trabalho e ficar com ele até aos 3 anos, ficava. Assim, fiz o que para mim é second best choice. Está com a minha sogra, em geral, e com os meus pais, quando eles podem vir cuidá-lo.
Eu também cresci com as minhas avós, rodeada de primos, todos à aventura nos quintais uns dos outros, a explorar as coelheiras e os galinheiros, uns com mais medo, outros menos, a esfolar joelhos e a andar de bicicleta... Foi uma infância feliz. Por acaso eu aprendi a ler muito pequenina, acabei por ir para a escola um ano antes do que era suposto, porque a conjuntura assim o quis. Mas não é NADA disso que eu retenho da minha infância. Foi uma infância feliz, e é isso que eu quero para o meu filho.

Soinita disse...

Os meus estão comigo porque eu estou desempregada.
Claro que estão com a melhor pessoa que poderiam estar, mas confesso-te que cansa um bocadinho passar o dia inteirinho a tomar conta deles.
Os meus pais e os meus sogros estão em casa, já reformados. Se eventualmente eu arranjar emprego nos entretantos, eles têm por isso quem fique com eles.
O problema aqui é que como tanto os meus pais como os meus sogros podem tomar conta, isso dificulta um bocadinho as coisas pois eu prefiro de looooonge deixá-los com os meus pais (digamos que não confio muito nos meus sogros), mas claro que depois a outra parte ficaria chateada.
Quanto à creche/infantário/escolinha, sim eu acho-a importante para o desenvolvimento das relações com os outros. Mas também considero que isso é mais importante a partir dos 3/4 anos.

Soinita disse...

Esqueci-me de uma coisa. :)
Hoje em dia as creches estão muito caras. Isto pode levar (para quem tem mais que um filho) a que se façam contas à vida e se opte por ficar em casa com eles. Pois das duas uma, ou se tem um salário muito bom, ou pagar cerca de 400 € por cada filho na creche torna-se uma despesa absurda.

Queen of Hearts disse...

Soinita, isso é o lado B de se estar em casa com o(s) filhote(s). Cansa sim, e muito! E no teu caso, imagino que canse a dobrar, não deve ser nada fácil a esse nível. Nesse aspecto, acho que os avós até são "mais" indicados do que nós. Pergunto-me onde vão eles buscar tamanhas doses massivas de paciência, tolerância, energia... :)
Também não invejo a tua situação no que respeita à questão "com quem deixar", mas posso dizer-te que é possível que te venhas a surpreender. No início, eu tinha um sentimento parecido com o teu, mas por contingências logísticas tive mesmo de optar por ter o meu filho a maior parte dos dias com os meus sogros e tem sido muito bom, muito melhor do que eu esperava, especialmente ao nível da nossa relação. Se calhar, a melhor opção é mesmo dividirem o tempo... dia sim, dia não ;)
E, por fim, efectivamente as creches têm preços absurdos hoje em dia. Se não se tem a sorte de se conseguir uma IPSS ou de se ter um rendimento familiar (bem) acima da média, é muito complicado, já nem falando no caso de gémeos! Nesses casos, às vezes julgo que as soluções alternativas não são piores. A SS, por exemplo, tem amas a trabalhar à sua tutela, em que os valores máximos julgo que rondarão metade dos que mencionaste. Eu sei que a ideia que se faz das amas não é a melhor (culpa de casos isolados que "estouram" nos media), mas eu SEI que as há muito boas e com excelentes condições. Pessoas de confiança e que trabalham mesmo sob as ordens e fiscalização da SS. É sempre mais uma alternativa...

Pipita de Chocolate disse...

Acho que só mães opinaram, mas eu queria deixar registada a minha experiência empírica: com crianças próximas de mim (filhos de amigos). Os que andam no infantário estão mais desenvolvidos ao nível da fala, identificação de animais, partes do corpo, etc. Já conseguem cantarolar algumas coisas e assimilam bem cedo gestos como dizer adeus, bater palmas, andar beijinhos, etc. Os que estão em casa, ou com amas, tê a linguagem menos desenvolvida, não estão tão "expostos" a canções e música, por isso são mais tímidos. Mas conheço um caso de uma menina que esteve em casa nos 2 primeiros anos e era super desenvolvida, mas a mãe é professora e "puxa" imenso por ela. Se exageros atenção! É um pouco tímida! No meu caso eu só fui para a creche aos 3 anos e era uma criança tímida. Já o meu marido é super desenrascado. Foi para lá com meses! Estas coisas podem não ter nada a ver e pode ser completamente dependente das personalidades de cada criança, mas eu tenciono, um dia que tenha filhos, colocá-los no infantário pequenos (atenção posso estar a cuspir para o ar!) porque acho que ficam mais despachados desde cedo. Nem sempre as avós/amas estão preparadas para entreter as crianças e ensinar certas coisas!

O melhor exemplo que tenho é de um "sobrinho", filho de amigos que tem uma memória fantástica! Aos 18 meses já sabia identificar todos os animais, fazer os seus sons, identificava carros, bicicletas, comboios, etc. Antes dos 2 anos já sabia as formas geométricas (quadrado, bola, losango, triângulo, rectângulo), as cores. Enfim é um miúdo que decora, agora com 3 anos, tiradas de desenhos animados completas! E não é sobre dotado nem estão a tentar ensiná-lo a ler, é apenas muito bom a fixar. E é super bem disposto!

Enfim, há exemplos pra todos os gostos!

Beijinhos

Me disse...

Filipa, eu tenho o exemplo oposto lá em casa (e atenção que até tenho uma miúda "pouco despachada" - o facto de ser pachorrenta e sossegadita tem esse "revés"). Aos 7 meses já bebia pelo copo sozinha (sendo normal fazê-lo apenas a partir dos 12-13 meses) e, muito antes de fazer um ano, já distinguia os animais (não conheço criança nenhuma em creche que com esta idade o saiba fazer). Todavia, tem 14 meses e ainda não anda sozinha. Cada caso é um caso e nestas coisas depende MUITO (senão, tudo) da própria criança.

Acredita, vais mudar a tua opinião, sobretudo quando a pediatra do teu filho te disser (como dizem todos os pediatras) "não pense em pô-la na creche antes dos 3 anos"...

Pipita de Chocolate disse...

Vanessa só hoje vi a tua mensagem. Consordo totalmente que depende dos miúdos. Este meu sobrinho emprestado é super despachado, mas é dele. Ele tem uma memória fantástica. Mas a mãe também puxa imenso por ele e conversa, pergunta-lhe coisas, explica e ele próprio é muito curioso! Eu nunca vi um miudo com menos de 2 anos saber formas geométricas na perfeição! Entre outras coisas. É mesmo experto.

Quanto ao ter filhos na creche: seguramente é para lá que vão, a minha mãe é professora e ainda vai ter de trabalhar muitos anos e a minha sogra também é nova e está longe da reforma! De maneiras que vai ter mesmo de ser :) Mas na altura logo se vê!

Beijinhos