segunda-feira, 29 de julho de 2013

Escreve 500 vezes no quadro, à Bart Simpson

Não mais comentarás assuntos que não valem a pena.


Quem me leia saberá que o aleitamento materno é um assunto que me é caro e próximo. Não só porque sou apologista do aleitamento conforme as indicações actuais da OMS - quer estas sejam universais e, portanto, tenham sido pensadas para abranger os países do terceiro mundo (com todas as suas dificuldades e consequentes problemas nutricionais infantis), ou quer elas tenham sido universalmente pensadas porque fazem sentido para todas as crianças do planeta.

Isto de se ser apologista seja do que for significa apenas que, para nós, essa coisa faz sentido; e que, por esse motivo, decidimos aplicá-la na nossa vida. Nunca na vida me verão tentar evangelizar o mundo e as outras mães. Eu faço o que faço; as outras façam o que quiserem. Não tentarei argumentar com certos e errados, e muito menos julgar e sentenciar as outras pessoas pelas escolhas que fazem e que não prejudicam ninguém, especialmente os alvos dessas escolhas: os filhos.

No entanto, ainda me choca quando leio textos como o que a Pipoca Mais Doce escreveu no seu blog de maternidade - sim, eu agora interesso-me por, gosto de e leio vários blogs de mães; temos uma identidade comum que eu também gosto de explorar blogosfera fora - explicando o seu percurso na amamentação do seu pequenino recém-nascido, e me deparo com a quantidade e a qualidade dos comentários que as pessoas lhe deixam, e deixam umas às outras.

Um parêntesis apenas para dizer que comentei, e aqui é a parte que me merece penitência. Não por ter comentado o post em si - pouco ou nada será relevante para a autora do blog o que eu penso; ainda que eu pense que ela fez uma opção inteligente, dadas as circunstâncias em que se encontrava, o que ela faz ou não é lá com ela. Ainda por cima num assunto que mexe com contornos tão melindrosos, ainda que esteja chapado num blog para toda a gente ler, não me julgo no direito de achar que se eu acho x, toda a gente deve fazer x, portanto vou dizê-lo para que toda a gente veja a luz.

O que me merece penitência foi comentar outros comentários, só porque me mexeram com os nervos. Tenho de enfiar na cabeça de uma vez por todas que a acefalia alheia não é contagiosa, por isso não devo somatizar esses sintomas. E não, não agredi ninguém nem coisa que se pareça, mas o simples facto de se tentar defender um ponto de vista perante... bem, portas e paredes... dá trabalho e não dá frutos.

De todo o modo, mexe-me com os nervos ver as pessoas atacarem-se por nada. Nada. O que os outros fazem com a vida deles deve representar zero na nossa vida. A menos que nos exija socorro, ajuda. De resto, esfera privada.
Estar a ler pessoas atacarem outras por não darem de mamar, por serem egoistas ao não darem o elixir da vida às suas crias - talibã; pessoas a atacarem outras, chamando-as vazias, cabeças ocas, animais, menos que animais, taradas, por fazerem aleitamento prolongado - talibã; ler pessoas a dizer que os médicos não sabem nada, enquanto dão brutais pontapés na "gramática" da saúde, tudo no mesmo parágrafo - talibã; ler pessoas a defenderem cegamente profissionais de saúde (certamente exemplares na sua formação e na sua especialidade) que lhes disseram que o leite era fraco, pouco (sem avaliar o contexto), insuficiente - talibã. E eu não devia ser fraca ao ponto de entrar nas discussões, embora com a ponderação de discurso que normalmente tenho na defesa das minhas opiniões.

Quanto ao aleitamento materno, a única coisa que me aborrece monumentalmente é que, hoje em dia, profissionais que sejam pediatras, neonatologistas, médicos ou enfermeiros de família, e enfermeiros de pediatria ou neo, não sejam obrigados a fazer a formação específica em amamentação, ou cursos de conselheiro de aleitamento materno. Para ficarem com toda a informação mais actual e saberem o suficiente, dando o necessário acompanhamento às mães que declarem a sua vontade de amamentar e conseguindo o sucesso na amamentação sem necessidade de suplementar, ou relactando totalmente em caso de tal ser necessário casuisticamente. Não dizendo a uma mãe que o seu leite é fraco (se as mães dos países terceiro-mundistas alimentam os filhos a leite materno, que dizer dos leites das nossas mães, que usufruem de todas as vantagens de uma boa dieta?), é pouco (se a produção tiver decaído, há uma enorme percentagem de probabilidade de se voltar a aumentar) ou insuficiente (pode ser necessário suplementar, mas com o devido acompanhamento, o suplemento pode e deve ser abandonado). Observando as causas do pouco aumento ou perda de peso do bebé - e que normalmente se prendem com o próprio bebé, que não tem reflexo de sucção adquirido, que não faz uma pega eficiente, que se cansa, que é preguiçoso e adormece, o que faz com que o pouco que o bebé mama (e que o mantém com fome e pouco peso) determine que o corpo entenda que tem de produzir apenas para aquela demanda, baixando a produção. Que saibam corrigir o bebé e ensiná-lo a mamar. Que reforcem a confiança às mães nas suas capacidades físicas e não as deixem frustradas com algo que elas, à partida, quereriam fazer. Obviamente que estou a falar genericamente, sem pensar em casos específicos como os RCIU ou prematuros, que devem ser avaliados em caso particular.

Porque depois é daqui que surgem muitos problemas. É certo que existe muita mãe que se acha melhor que a vizinha porque deu de mamar, e mamar era a coisa certa a fazer, e até se sofreu bastante para dar de mamar e isso é que prova o quão eu sou boa mãe. Insegurança pura e necessidade de auto-afirmação para hetero-validação. Mas também existe, e grassa por aí, o reverso da medalha: a passivo-agressividade de quem não o fez, e ao ver outras mães vangloriarem-se dos seus feitos (ou simplesmente falarem do assunto, sem gabarolices, já não se faz distinção) automaticamente partirem para uma defesa feroz: "eu não sou pior mãe porque dei biberão", "eu não tinha leite, querem lá ver que tenho culpa?", "lá vêm as fundamentalistas, suas taradas, suas animais"... Sentem-e atacadas quando muitas vezes não o são, refugiam-se em justificações fisiológicas (muitas vezes, sem real fundamento, ou alicerçadas em factores transformáveis) para não serem crucificadas por uma opção tomada. Enfim, é uma batalha a céu aberto. E não tem por que ser. Na verdade, sou crente em que só nos vergam as pressões que permitimos que exerçam sobre nós. Se as ignorarmos, elas não existem.

Antes de engravidar, e durante a minha gravidez, eu não me via a dar de mamar a um puto com dentes. Fazia-me impressão, pá, pensar naqueles dentes, que me lembram crianças e não bebés, que me lembram mordidelas em sítios dolorosos, não queria e não me via. O que é certo é que o meu filho teve dentes aos 5 meses. E mamou. Mordeu, levou raspanete e não mordeu mais. E mamou até ter toda a dentição que se pode esperar de um puto com ano e meio de vida. Eu mudei de opinião. Li, estudei (dentro das minhas limitações), avaliei, fui lendo os sinais que o miúdo dava. Isto é normal com a maternidade. Nós mudamos, muitas coisas mudam. Não quer dizer que nos traiamos.
Ele deixou de mamar porque quis, com 19 meses. Eu só teria continuado a oferecer até aos 2 anos, não foi preciso. Fiquei um pouco desconcertada (será que ele vai agora querer-me menos?), mas por outro lado, bastante contente por poder voltar a beber vinho, sangria, fininhos e licor Beirão.
Nunca foi menos ligado ao pai do que o que seria desejável e saudável por ter mamado, dia e noite. Tinha outras ligações ao pai: colo, muito colo, soninhos, banhos, sopas e papas, dependia dos dias e das vontades. Nunca foi dependente de mim por mamar, ainda hoje não é: é extrovertido, brincalhão, igualmente carinhoso comigo e com o pai, sempre ficou com várias pessoas, avós, tias, fosse de dia ou a passar a noite para os pais sairem nos seus pequenos oásis da everyday life. Tive de ouvir determinadas coisas que não gostei: "ele não engorda muito, será que o teu leite chega?", "ele já tem um ano, ainda tens leite?", "tens de o desmamar, ele já tem idade e tu tens de dormir". A opção foi minha. Posso queixar-me de não dormir? Estou no meu direito. Eu não dormia, não porque ele quisesse mamar; ele acordava porque sim. Deixou de acordar de repente, e eu não precisei de o forçar a nada. Deixou de mamar de repente, e eu não o forcei a nada. Cresceu.

Por isso é que não aceito os argumentos contra nem a favor, com fundamentalismos. As crianças, como nós, são todas diferentes. Não vão ficar tolhidas comportamentalmente pela amamentação, se no restante comportamento da mãe esse tolhimento não for potenciado. Não vão perder vinculação à mãe se beberem o seu leite pelo biberão. Umas vão desmamar aos 8 meses, outras aos 19, outras aos 36. No entanto, de uma coisa deve sempre depender a amamentação: da vontade da mãe. Sem a vontade da mãe, não deve acontecer. Porque às vezes vai custar, vão acontecer percalços, dores, doenças. Se doer, o bebé não está a mamar correctamente, e isso pode ser corrigido e terminado. Mas depende da mãe. É uma escolha, mas que deveria ser feita em plena consciência e informação.
Em última análise, como dizia a Dora, nas nossas mamas, mandamos nós. Ninguém tem direito a palpites.

2 comentários:

_+*Ælitis in Angola*+_ disse...

Olá Queen of Hearts,

Não posso muito opinar quanto ao assunto porque não sou mae, etc e tal. Mas o teu post lembrou-me um da co-autora de Young House Love, pois vocês parecem ter vivido uma experiencia parecida quanto aos vossos filhos.

Se já leste não repito, mas se não tiveres lido, farei questão de procurar para postar aqui.

Beijos. And keep calm ;)

Queen of Hearts disse...

Obrigada, querida :) Não li, não... Vou ver se consigo encontrar, senão ainda te chateio pelo link. :) Beijinho grande.