Não sei se já aqui falei sobre o acordo ortográfico a que
infelizmente nos vamos ter de sujeitar. Mas se não o fiz aqui, certamente que noutros sítios já dei uns ares da minha graça. Contudo, hoje, ao ler
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Saltos Altos Vermelhos, não posso deixar de tecer algumas considerações sobre, nem de colocar à douta blogocomunidade algumas dúvidas que me assolam.
Antes de mais, esclareço que nem sequer ainda me dei ao trabalho de ler extensivamente o acordo. Se tivesse por ele mais interesse, a diligência teria sido outra. Sei aquilo que nos é genericamente veiculado pelos meios de comunicação, e creio que isso é o suficiente para poder opinar com alguma legitimidade, até porque as minhas considerações são de cariz igualmente genérico.
Não concordo com a aplicação deste acordo ortográfico. Sinto que, com ele, nos é retirada alguma identidade. Sinto que tudo aquilo que aprendi com gosto - porque, para mim, aprender a minha língua materna com correcção sempre foi um verdadeiro gosto e um orgulho - é obsoleto e sem valor. E sinto que já nem sequer sei escrever português. Por isso, detesto que me imponham este "estandarte de modernidade", que nem sequer sei de quê ao certo é bastião.
E não me tentem convencer com argumentos do género "há relativamente poucos anos ainda se escrevia com ph e agora já ninguém se queixa" e não sei mais o quê. Não é a mesma coisa falarmos da evolução natural de uma língua, sua grafia e fonética, e falarmos de ajustes à grafia e fonética dessa mesma língua, por forma a que ela seja objecto de uma "normalização" extensiva a outros países que também a usam. Estranho apenas que essa normalização passe por uma adaptação do povo que a criou a novas regras, provindas por sua vez dos povos que adoptaram o português após séculos de existência. É assim que penso, e é por isso que rejeito escrever ao abrigo do novo acordo.
Por outro lado, tenho cá para mim algumas dúvidas, que me fazem também duvidar do carácter simplificatório deste acordo.
Pergunto eu:
1/ Agora escreve-se tudo em minúsculas (leia-se os meses, os nomes de ruas/monumentos/ etc.)? Por quê? Era realmente complicado apertar o shift para escrever uma maiúscula de vez em quando?
2/ Agora abolimos os acentos circunflexos? Juro que vou demorar o dobro do tempo a ler qualquer simples texto.
3/ E os outros acentos? Os agudos, por exemplo? Às vezes escrevem-se, outras vezes não? Qual é o critério? Por exemplo, qual o problema que havia em heróico ter acento? Juro que não entendo. Agora passamos a dizer "herôico" (porque só assim se torna lógico para mim)?
4/ E palavras como neorealismo? Ainda dizemos "rrrrr"? Também não me faz sentido.
5/ E os hífenes em, por exemplo, "hão de"? Que feio. Parece-me que estou a escrever a dar erros, porque a maior parte destes exemplos que apontei ERAM erros quando eu aprendi a escrever.
*suspiro com frustração*