Tropecei
neste texto da I. e senti-me tão identificada com ele que não resisti a atirar os meus dois centimozitos cheios de bílis para o pote.
Não são propriamente as borlas que me chateiam. Está certo que todos trabalhamos para viver, e para pôr a côdea na mesa; que todas as borlas que faço me retiram tempo precioso para outros assuntos, e outros clientes, que poderiam render dividendos que as borlas não me rendem. Mas não está na minha natureza negar ajuda - e aqui peço uma grande atenção para esta especificidade -
às pessoas de quem gosto e que fazem parte da minha vida. Até o faço, quem me conhece sabe-o, com todo o prazer. A nuance está em que sou EU quem deve escolher a quem fazer uma borla - não ser procurada com esse intuito. Ponto número um. Os "avulsos" são os que me irritam, não os amigos ou familiares a quem pontualmente resolva um ou outro problema ou responda a alguma questão.
E acredite quem quiser, há situações verdadeiramente épicas: como a da fulana a quem devolvo uma chamada, motivada por eu lhe estar a tentar cobrar uma dívida para com um cliente meu, e levar com um "olhe, já agora, posso fazer uma perguntinha?". Comigo a pagar a chamada! Ou o dia em que recebo uma chamada de uma pessoa que "era só para fazer uma perguntinha", a tentar passar por conhecido, e eu sem perceber quem era e a insistir em saber, e a pessoa lá se descose "eu vi o seu nome na lista telefónica e estou a ligar". Claro que foi logo corrido a "então se quiser perguntar tem de marcar hora e vir cá".
Outra situação que me irrita sobremaneira é a de em fóruns ou afins se colocarem tópicos como "há algum advogado? - preciso de ajuda". Eu entendo que o dinheiro não nasça das árvores. Mas por amor da santa. E sim, já fui totó e já respondi em situações destas. Apenas para ter a caixa de mensagens a transbordar nos dias seguintes, e sem direito, muitas vezes, a um "obrigado/a" sequer. Resultado: deixei de ser totó. Num piscar de olhos, que eu tenho mesmo muito que fazer, graças aos Céus.
De resto, tudo o que é
aqui referido é verdade, verdadinha. Só tenho a acrescentar um pormenor virulento: é um facto que as pessoas (nomeadamente as tais quem nem nos conhecem e querem só fazer uma perguntita) acham que quem tem um determinado curso ou ofício tem de saber de todas as áreas e sub-áreas e recantos desse ofício de cor, sem estudar e sem pensar mais de 30 segundos antes de responder. Não é assim, realmente. Mal de mim que tivesse todas as áreas do Direito Português, e todas as normas em vigor (mais os procedimentos das Finanças e da Segurança Social) condensadas no meu pobre caco. Nesse aspecto, é tamanha a ignorância alheia que, se uma pessoa não se quiser atravessar, dando uma resposta irresponsável e infundada, genérica e portanto falível no caso em concreto, além de se arriscar a que a levem a mal, aos olhos de quem quer um milagre ainda passa por burra e incompetente e leva a correspondente publicidade negativa.